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segunda-feira, 1 de novembro de 2010

O Iluminismo de Kant

Immanuel Kant (1724-1804) era conhecido como relógio humano. Extremamente rigoroso, fazia sempre as mesmas coisas no mesmo horário do dia. Este método foi transposto para sua filosofia. Filho do pensamento liberal foi um dos maiores expoentes do Iluminismo que ele próprio definiu como “a saída do homem de sua menoridade de que ele próprio é culpado”. Com essa definição vemos que Kant viu o homem como um ser racional, mas que não estava usando essa razão. Seu lema era sapere aude, ou seja, ouse saber.
O método kantiano era a crítica, isto é, submeter a razão ao tribunal da própria razão. Assim, Kant tentou pensar em uma moral universal (direitos humanos como um direito universal, já que ele era liberal) nos mesmos moldes que Newton pensou uma ciência universal. Felicidade e beleza não são exemplos de universalidade, pois o que me torna feliz ou acho ser belo não é compartilhado por todos. Com isso, Kant percebeu que tudo na natureza é submetido à leis. A natureza é um mundo de necessidade, tudo tem uma causa. E a sociedade não pode ter tudo causal, senão o criminoso seria a vítima, já que seus atos seriam causados por eventos antecessores.
Para conseguir uma moral e um Direito universal o homem deve ser livre, autônomo (seguir leis produzidas pela própria razão). Parafraseando Rousseau, Kant troca aristocracia e povo por inclinação e razão, respectivamente. Para Kant, se a inclinação formula leis e a razão as segue, a razão não é livre; mas se a razão segue as leis produzidas por si mesma, ela é livre. Kant formula o conceito de Faktum da razão, ou seja, a faculdade de representar leis morais, critérios de comportamento para si (desejo), isto é, a razão é dotada de capacidade de julgamento (formula juízos morais), o que o cristianismo chama de consciência.
No pensamento kantiano, Deus não tem moral por não ter corpo para sentir prazer, nunca agindo contra a moral. Nem os animais têm moral, já que não tem razão. Apenas homem livre tem moral. O problema da razão surge quando a razão sugere algo que não traz felicidade. Mas como Kant disse: “o objetivo da moral não é nos tornar felizes, mas nos tornar dignos de felicidade”.
Há alguns conceitos importantes para se compreender Kant. Dever é a necessidade de uma ação por respeito à lei. Máximas são princípios subjetivos do querer; leis são princípios objetivos do agir. Imperativo hipotético é uma ação boa como meio para se chegar a um fim externo (se queres A, deves B: para se alcançar o fim que é construir objetos, deves antes dilatar metais). Imperativo categórico é uma ação boa em si mesmo (Deves A: deves falar a verdade; não deves matar). Com isso, se as máximas produzidas pela razão passam pelo teste do imperativo categórico, torna-se lei universal produzida pela vontade (razão) livre.
Kant faz uma distinção entre moralidade (por respeito à lei) e legalidade (conforme a lei). Com isso, nem toda lei é moral, como por exemplo pagar imposto para não ser multado ou para contribuir para o bem estar social. Ambos os motivos são legais, mas apenas para não ser multado é moral, pois respeita a lei.
Para Kant o Direito é necessário por ser responsável pela coexistência dos arbítrios, ou seja, das vontades empiricamente determináveis, tanto pela razão quanto pela inclinação. Há uma limitação recíproca, pois as vontades são limitadas. Podemos resumir o imperativo categórico do Direito como a liberdade de um termina onde começa a liberdade do outro. Há três formas de imperativo categórico: universalidade (máxima como lei universal); reino dos fins ou humanidade (homem é fim em si mesmo); e autonomia.
Para Kant, quando há uma coação está defendendo a liberdade. Quando se comete um crime está-se negando a liberdade. A pena nega o crime. Então a coação é legítima, pois coação é a negação da negação (afirmação) da liberdade. Em um raciocínio típico do iluminismo, matemático, racional.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Razão = Egoísmo?

Descartes foi (é) um dos mais importantes pensadores da história da humanidade. Foi ele que colocou o sujeito no centro da discussão como um ser racional. Com isso, cada indivíduo pode perseguir seus próprios desejos, não estando mais preso à vontade da comunidade. Mas como Descartes desenvolveu esse pensamento?

No fim da vida, Descartes resolveu revisar toda sua filosofia. Isto se deu pela “dúvida hiperbólica”, isto é, ele duvidou de tudo. Pelo Princípio da Suspensão do Juízo (epoché), ao analisar uma questão se não conseguir decidir se ela está certa ou errada, suspende a análide desta questão e passa-se a analisar a seguinte, já que ao entender as questões subsequentes pode ajudar na compreensão da questão suspendida. Assim, deve-se duvidar de de tudo que não se tenha 100% de certeza. Se tiver 99,99% de certeza deve-se duvidar e suspender o juízo.

Assim, Descartes começa a questionar se Deus existe, se a alma é imortal, até que ele chega a uma pergunta essencial para a Modernidade: “eu existo? Tenho um corpo?”. Para tentar responder a essas perguntas, Descartes analisa as faculdades da mente: sentido, imaginação e razão.

Os sentidos fazem com que o que é externo à mente torne-se interno. Por exemplo, quando vemos um vulto pensamos ser um fantasma, mas pode ser apenas o vento. Com isso Descartes conclui que os sentidos nos enganam, não sempre, mas o problema é que quando ele nos engana não sabemos que estamos sendo enganados (o que faz com que acreditemos em fantasmas).

Passando a analisar a imaginação, ou seja, o poder da mente de representar objetos, Descartes diz que imaginamos ter um corpo, sem usar os sentidos, mas isso não quer dizer que tenhamos um corpo, como por exemplo quando sonhamos parece ser realidade, mas não é. Descartes conclui que a imaginação tem um defeito inerente que é a incapacidade de imaginar o real (como uma figura geométrica de 1000 lados) e a capacidade de representar o irreal (quando sonhamos que temos um corpo).

Após decartar as duas faculdades mentais, Descartes passa a analisar a razão. E ele conclui que também a razão não é capaz de responder o que eu sou, pois e se um deus maligno (demônio) me criou com uma razão que me engana (como acreditar que 2+2=5). Com a análise das três faculdades mentais, Descartes critica as evidências empíricas e a tripartição da alma de Aristóteles.

Descartes chega a conclusão de que existe um eu/ego/mente/ indivíduo pelo simples fato de que há dúvida de que existe. Se há dúvida, há 100% de certeza da existência. Duvido (penso), logo existo.

Ao dar o exemplo da cera, Descartes conclui que temos um corpo. Os sentidos (gosto, cheiro, visão) dizem-nos que a cera existe, mas podemos estar imaginado que ela existe. Se aquecermos a cera ela evaporará, mas a extensão (espaço) da cera evaporada continua. Assim, a extensão é uma ideia inata, revelada pelo Cogito. O corpo ocupa espaço, ma a mente (alma) não. A alma é imortal, por não ser extensa, não se subdividir. O corpo morre, pois ele subdivide-se. Com isso, homem e animal tem corpo, mas apenas o homem sabe que tem corpo, pois só se sabe se tem mente. Descartes conclui que é muito mais certo que tenhamos uma mente que um corpo. Assim, o homem é um ser que pensa.

Mas e o outro? O outro é apenas um corpo, não pensa, pois um Deus bondoso me criou com mente, mas criou os outros parecidos a mim que agem como seres programados, somente para eu não me sentir solitário. Com isso, o egoísmo é a própria Modernidade, pois se tenho uma mente tenho dignidade, mas se o outro é apenas um corpo, porque tenho que tratá-lo como um igual?

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Surgimento do Liberalismo

Com a Modernidade surge uma nova concepção de justiça. O justo não mais está vinculado à ideia comunitarista de bem comum, mas ao direito individual. O liberalismo altera a preocupação da comunidade para o indivíduo.
Isto é fruto de mudanças sociais, políticas, econômicas e científicas. Pensadores dos séculos XV, XVI e XVII jogam por terra a metafísica aristotélica que predominou intacta por dois mil anos, sobretudo por influência do cristianismo. São nomes importantes dessa fase Copérnico, Kepler e, principalmente, Galileu que desmistifica a ideia de que a Terra era o centro do universo.
A Europa, após um longo período marcado pelo obscurantismo medieval, passa por um ressurgimento iluminado. Com as grandes navegações descobre-se que, além da Terra ser redonda, também a Europa não estava no centro do mundo. Em outras terras os europeus descobriram novas tecnologias como pólvora e bússola.
Com a Reforma Protestante, Lutero quebra a hegemonia da Igreja Católica Apostólica Romana que deixa de ser o centro da Europa. Lutero apregoava que todos deveriam ser iguais e interpretar as escrituras. Sem uma palavra hegemônica, o Estado ganha importância, possibilitando a invenção do Direito Internacional por Grotius para resolver conflitos entre Estados Nacionais, já que a autoridade da Igreja já não mais era aceita.
Com isso, abre caminho para a valorização do homem, já que não há mais centros (referências) que orientem a vida. E como não é possível viver sem centros, cada homem converte-se em seu próprio centro. O homem não "é" mais, ele "tem". O importante é demonstrar riqueza, sem preocupação com as virtudes internas.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Sucesso ou Virtude?

Alasdair MacIntyre (1929-) lançou em 1981 o livro Depois da Virtude, uma obra neocomunitarista, trazendo ao século XX as lições da Filosofia greco-romana e medieval, sobretudo ensinamentos de Aristóteles. MacIntyre defende o fracasso do projeto iluminista, fazendo um estudo das virtudes nas obras de Homero, Aristóteles, cristianismo, Jane Austen e Benjamin Franklin.
Os homens adquirem virtudes pela prática, que é uma atividade cooperativa complexa socialmente estabelecida. MacIntyre diz que há bens internos e externos à prática. Os bens internos só podem ser atingidos por meio da prática, quanto mais uma pessoa o possui, mais a comunidade o possui. Os bens externos podem ser aintidos por vários meios, quanto mais alguém o possui, menos a comunidade o possui, traz fama e sucesso individual.
O bem interno do Direito é a Justiça. Só domina a justiça quem a pratica, e apenas quem a domina sabe dizer qual é a virtude necessária para atingí-la.
As instituições corrompem a prática, fazendo com que apenas os bens externos sejam objeto de preocupação. São as virtudes que permitem resistir à força corruptora das instituições.
Bom para compreender a filosofia de MacIntyre é pelo filme O Clube do Imperador. Nele vemos claramente o conflito entre a vida boa (telos) e o sucesso. Vemos também a função da educação e o poder das instituições.
Bom filme!!!

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Tirania e Destino

A mitologia grega chegou até nós, em grande parte, pela Tragédia Grega. Esta forma literária presente nas peças teatrais de Sófocles, Eurípedes e Ésquilo conta-nos histórias de personagens divinos que nada mais são que uma autorreflexão de um povo com suas peculiaridades. A tentativa de explicar como o universo surgiu, ou como e para que os humanos surgiram ou os fenômenos naturais faz um reprodução de características humanas em seres divinos.
Os antigos gregos acreditavam que o homem e a comunidade em que viviam apresentavam uma medida correta, o que proporcionava ordem ao cosmos. Quando o homem pratica um erro, uma hamartia, comete uma desmedida, uma hybris, que provoca uma ofensa aos deuses e o destino corrigirá esse erro. Isto está presente na Tragédia Grega. Isso nos mostra como o destino (moira) era importante para o grego antigo.
Há dois governantes na Antiguidade. O basileus representa a normalidade das coisas, que ascende ao poder pela linhagem sanguínea e governa pelo bem dos súditos. E os reis tyrannos que representam a interrupção da normalidade no cosmos, chegam ao poder derramando sangue em guerras, por meio da força e da violência.
Uma obra que retrata isso é Prometeu Acorrentado de Ésquilo. Há uma inversão de papeis: Prometeu é um titã é justo e sábio, e Zeus apresenta uma característica dos titãs, a violência. Prometeu incorreu nas iras de Zeus por ter dado o fogo aos homens (Zeus queria destruir a humanidade) e não quis contar qual filho de Zeus o destronaria (o direito de sangue está muito bem defendido por Antígona de Sófocles, no qual todo sangue demarrado deve ser vingado, e foi como Zeus conquistou o trono, com guerra).
Aristóteles definiu o tirano como o governante despótico que visa o seu próprio bem em detrimento do bem da comunidade. Assim, a dúvida que surge é: como a tirania floresce no seio da humanidade? No Discurso da Servidão Voluntária, Etienne de la Boétie diz que só é possível a tirania porque os homens não se reconhecem como iguais. Com isso, no "mau encontro" que é a servidão juntam-se a vontade de servir e medo de não acatar às ordens do tirano.



Para saber mais, visite:
blogos.zip.net

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Filosofia e Coruja

A Filosofia tem como símbolo a coruja. Mas não é uma coruja qualquer. É a Coruja de Minerva. Minerva é uma deusa romana. Seu equivalente grego é Athena.
A deusa Athena é a filha predileta do deus dos deuses, Zeus, e da deusa Metis, cujo nome significa “conselheira”, e que indica a posse de uma sabedoria prática. Athena não nasceu de parto normal. Zeus engoliu a esposa, Metis, para se safar do filho que, pensava ele, poderia destroná-lo, aliás, como ele próprio fez com seu pai, Cronos. O nascimento de Athena se dá de um modo especial: após uma grande dor de cabeça, Zeus teve sua fronte aberta por um de seus filhos, e daí espirrou Athena, já forte e grande.
Hegel disse que "a Coruja de Minerva levanta vôo somente ao entardecer", aludindo ao papel da filosofia, isto é, a voz da razão explica a história. Depois que aconteceu a História a Filosofia mostra que esta não foi em vão.
Para saber mais sobre a deusa artesã e por que a coruja é o símbolo da Filosofia, visite:

http://ghiraldelli.pro.br/2010/07/06/coruja-e-filosofia/

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Piteco e a Alegoria da Caverna

A Alegoria da Caverna é um modo didático de Platão contar como é o caminho ascendente do filósofo para aqueles que não são filósofos e que, não tendo feito tal caminho e estando longe dele, poderão vislumbrar do que se trata. Platão usa como metáfora uma caverna. Para quem está dentro da caverna, ela é a realidade e o mundo de fora é uma ilusão.

Maurício de Sousa, autor de uma tira de HQ chamada "As sombras da vida", em que Piteco, seu herói primitivo, protagoniza uma historieta que enlaça o que seria a Alegoria da Caverna, mais ou menos como a contada por Platão, e a nossa situação atual, em que a Caverna nada seria senão a televisão. A idéia básica de Maurício é a de que a TV apresenta um mundo que não é o mundo real, embora os homens prefiram acreditar nela, tomando-a mais real que o mundo apresentado a eles independentemente da TV.

Mas a ilusão provocada pela Caverna de Platão é a mesma da TV de Maurício? Há correlação entre elas?

Para saber mais, visite:
http://ghiraldelli.pro.br/2010/08/30/piteco-e-a-alegoria-da-caverna/